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WEBMUSICZINE : Albums em destaque, edições de 2008 (Jan-Abr)

BLACKFILM > Blackfilm > (Spectraliquid Greece, SLQ002) 30/abr

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Blackfilm é um projecto anónimo de origem britânica que acaba de editar o álbum de estreia por uma editora de Atenas. Blackfilm é um disco de música elaborada, de matriz electrónica mas com a presença de violinos, violoncelos, piano e elementos étnicos, que resultam em faixas cinemáticas, downtempo, com uma atmosfera escurecida. As melodias sugerem ruas ameaçadoras, paisagens urbanas sombrias levadas à auto-destruição, em grandes planos de um filme "noir". Apresentado como situado na área dubstep e d'n'b (ligações que se revelam muito pouco evidentes), referenciando também Amon Tobin, Portishead e FSOL, Blackfilm encontra, nas suas orquestrações, mais pontos de contacto com os Massive Attack de «Protection» do que qualquer das outras referências dadas, muito embora a combinação de electrónica com elementos clássicos tenha originalidade suficiente para valer por si própria, e se recomende sem reservas. [s18-8] zv5e

DARSOMBRA > Eternal Jewel > (Public Guilt USA, PG015) 29/abr

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Eternal Jewel é o segundo álbum a solo de Brian Daniloski, um músico credenciado na cena noise/metal de Baltimore, com o seu projecto de natureza mais experimental, Darsombra. Depois de Ecdysis em 2006, que tão boa impressão deixou, mudou-se para uma editora mais pequena, que também alberga a banda Trephine onde toca baixo, e editou um CD-R de 3", "Deliriums & Death" de 2007, a que se segue este novo Eternal Jewel, composto de cinco faixas entre os 3 e os 18 minutos. Quem ouviu as "doomscapes" de Ecdysis e do EP que lhe sucedeu sabe com o que pode contar, mas Eternal Jewel é um pouco mais etéreo e electrónico na sua sonoridade global, e os seus ambientes negros têm algo a ver com as bandas sonoras clássicas dos Goblin, num cruzamento impossível de Frip & Eno com Black Sabbath. Brian Daniloski desafia os limites da guitarra como instrumento musical, e à medida que se vai afirmando nesta aventura paralela também o seu trabalho se torna mais forte e confiante, nas ondulações de reverberação, na gestão da tensão e na agressividade rítmica. [s21-8] zv5e1 | mp3 | video

STRATEGY > Music For Lamping > (Audio Dregs USA, ADR068) 29/abr

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Paul Dickow deve muita da sua notoriedade a Future Rock, editado no ano passado, e aos singles de música de dança que orbitavam esse que era já o seu terceiro álbum. E quem chegar a Music For Lamping vindo desse direcção poderá ter uma grande surpresa. Ao contrário de Future Rock, não há por aqui ritmos house nem canções downtempo, mas drones, field-recordings, plunderphonics e ambient. Ou seja, uma boa parte dos ingredientes que preencheram Strut (2003) e Drumsolo's Delight (2004), os dois álbuns iniciais. E isso tem uma justificação porque Music For Lamping é um trabalho em desenvolvimento desde 2002 que só agora ficou concluído. O disco utiliza uma paleta sonora exótica e vibrante, de sonoridades nebulosas e ambiências coloridas, que atestam a compreensão do género em todas as suas formas, quer tenham origem na síntese da complexidade granular ou nas técnicas rudimentares de samplagem asfixiadas pela reverberação. Um álbum entre álbuns, um desvio a um trajecto cujo afastamento só os trabalhos futuros revelarão em toda a sua dimensão, Music For Lamping é, talvez por isso mesmo, merecedor da mais profunda atenção, para além do seu óbvio valor intrínseco. [s19-8] zv5c1

PORTISHEAD > Third > (Island / Universal UK, 1764013) 28/abr

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Devido ao "trip-hop" e ao seu malfadado impacto na cultura popular no final do século passado, é fácil esquecer o arrojo e a inovação que trouxeram bandas como os Portishead. É discutível se os Portishead foram ou não vítimas do seu próprio sucesso - o seu álbum-estreia Dummy, de 1994, ainda hoje soa muito bem - mas as coisas que com eles foram associadas tornaram-se anedóticos lugares-comuns. Third, onze anos depois de Portishead, tem o fardo pesado de reconquistar uma audiência há muito dispersa, mas fez-se anunciar por um dos mais surpreendentes singles do ano, "Machine Gun". Como curadores do festival All Tommorow's Parties, em Dezembro do ano passado, as escolhas dos Portishead pareceram surpreendentes (Boris, Earth, Fuck Buttons, Julian Cope, Om, Oren Ambarchi, Sunn O))),...), e os temas que colocaram no My Space levantavam já a ponta do véu do que viria a ser o novo álbum. Third é um disco que surpreende a cada faixa, com influências industriais, krautrock e do drone-rock americano, um disco descomprometido e de uma beleza estranha que, mais do que a actualização do seu som de marca, parte para outros horizontes musicais. Acabou-se o scratch e a voz de Beth Gibbons tem outra intensidade, num amadurecimento que já se evidenciava em 2002, quando gravou «Out Of Season» com Rustin' Man. É dificil imaginar que Third possa vir a ter a notoriedade dos dois álbuns anteriores, mas nem por isso deixa de ser um disco notável, certamente um dos melhores deste ano. [s18-8] zv5d

GEL-SOL > Iz > (Psychonavigation Ireland, PSY023CD) 23/abr

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Andrew Reichel, produtor de Seattle que se revelou com o álbum Gel-Sol 1104, de 2004, publicado na Emit – editora de luxo que, nos anos 90, divulgou fabulosos discos de ambient de Woob, Gas, Miasma, etc. - surge agora com o terceiro álbum Iz, dedicado à sua sobrinha Izabella, nascida há um ano. Pelo meio ficou Unifactor, de 2007, mas de comum aos três trabalhos há um fascínio pelo ambientalismo, uma dicotomia no som que vai desde calmas paisagens sonoras a uma electrónica rítmica complexa, criando um universo psicadélico dinâmico, com forte ênfase na improvisação. As suas influências estão no prog e kraut rock dos anos 70, na electrónica e no psicadelismo. A música de Iz mostra a faceta melódica que é a imagem de marca de Gel-Sol, combinada com teclados e sintetizadores calorosos, que remetem para os anos 90 e para os álbuns ambientais de Pete Namlook, Irresistible Force ou Global Communication. [s18-8] zv5c | mp3

KANGDING RAY > Automne Fold > (Raster Noton Germany, RN094) 23/abr

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No seguimento do bem recebido Stabil de 2006, Kangding Ray edita o seu segundo longa-duração intitulado Automne Fold. Torna-se evidente que David Letellier, o responsável pelo projecto, deixou para trás a quietude primitiva do disco de estreia, optando por gravar sons mais agrestes, escuros e orgânicos que no trabalho anterior. Os ritmos pulsantes perdem-se em paredes de cordas saturadas, as palavras pronunciam-se sobre guitarras acústicas tocadas com arco, e os sintetizadores analógicos colidem com gravações de campo urbanas. As vozes são um tema central ao longo do disco. Tratadas como material em bruto, como qualquer outro som, as vozes tornam-se ritmos, melodias e inspiração. Em certos momentos Automne Fold retém a simplicidade emocional da estrutura da canção tradicional, onde a mensagem e imagem são simultâneas, mas mostra também texturas radicalmente abstractas, onde as faixas se tornam formas fechadas de sons estáticos. Automne Fold é um álbum instrumental de 14 faixas e uma divagação cinemática entre o groove e os sentidos. [s18-8] zv5b | mp3

SND > 4, 5, 6 > (SND UK, SND04/05/06) 21/abr

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Duo de Sheffield composto por Mat Steel e Mark Fell, os SND apareceram nos finais da década de 90 com três 12" anónimos - "Tplay", "Newtables" e "Travelog" - decorados com abstracções geométricas. Um número de telefone carimbado, os números de catálogo (1, 2 e 3) sem nenhuma outra informação, mas contendo uma música ainda hoje inclassificável, marcada por percussões descarnadas, um desalinhamento dos impulsos do baixo e crepitação estática que obrigava o ouvinte a preencher os vazios, música que esteve na origem do clicks & cuts e influenciou profundamente o minimalismo da editora Sahko e algum do techno mais minimal. Seguiram-se três álbuns na extinta Mille Plateaux e depois o silêncio. Sete anos passados, após terem aparecido ao vivo nas primeiras partes da última digressão dos Autechre, os SND apresentam dez novas faixas num EP triplo (numerado de 4 a 6), num paralelismo que sugere um reinício na estaca zero, tanto mais que a edição é limitada a 300 unidades. Quanto à música, é tudo quanto se podia esperar dos SND: batidas fabulosas, a sua sonoridade reconhecível, elaborada e sofisticada. Eles utilizam uma estrutura de sobreposições, onde as percussões escapam à marcação do tempo e a música salta com imprevisibilidade, fora de todas as convenções. Este trabalho denota uma grande liberdade criativa na base de uma música simultaneamente experimental e alegre, com maior variedade do que era habitual, que poderia ser um dos discos mais marcantes do ano se tivesse a oportunidade de chegar a uma audiência mais alargada. [s26-8] zv5h

PHILIP JECK > Sand > (Touch UK, TO67) 21/abr

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Quinto álbum a solo para a Touch, oitavo no total de uma discografia já com certa extensão, Sand foi gravado ao vivo na Holanda e Inglaterra em 2006-2007 e editado em Janeiro deste ano em Liverpool, utilizando gira-discos Fidelity, teclados Casio SK, um misturador Behringer e um gravador de mini-discs Sony. Sand é um conjunto de sete composições onde Philip Jeck dá largas à sua perícia na manipulação de vinilo e no despertar de mamórias pessoais e colectivas. Sand é simultaneamente elegíaco, celebrativo, lúgubre e alegre. Quem seguiu a evolução de Jeck desde o início, com Loopholes, vai notar um regresso às texturas industriais do material mais antigo, embora aqui elas atestem a sua graciosidade sinfónica e o contínuo desenvolvimento como compositor e intérprete ao vivo. Philip Jeck trabalha com discos antigos e gira-discos resgatados a lojas de velharias, adaptando-os aos seus objectivos, e tocando-os como instrumentos musicais reais, criando uma densa linguagem pessoal que evolui com cada pormenor adicionado. Os resultados são arrebatadores. [s21-8] zv5f | mp3

DATASSETTE > Datassette > (Ai UK, AI021LP) 21/abr

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Datassette é um LP duplo que marca a estreia de John M. Davis no formato longo, após um EP split com Plant43 editado entre os dois tomos de Maintenance Werk, 14 faixas exclusivamente em MP3 e divididas entre 2005 e 2007. Apesar das evidentes influências do electro mais old-school, Datassette não se deixa arrumar em nenhum género específico, percorrendo diversos estilos e humores que lhe proporcionam uma variedade e inventividade permanente. Recorrendo também a formas recentes de minimalismo e de breakbeat, passa por texturas sónicas mecanizadas, baixos pesados, ritmos dubstep, agradáveis momentos de sintetizador que não destoariam num disco dos Metro Area, techno e electro para a pista de dança, electro-rock e até folktrónica. Ao longo destas 10 faixas, de cada vez que julgamos começar a conhecer Datassette, ele mostra um dos seus outros lados, com a maior destreza. Sem dúvida um talento a seguir com atenção. [s17-8] zv5 | mp3

KATHARTES > The Narcotic Trinket > (Aspect Arts USA, no cat. no.) 20/abr

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The Narcotic Trinklet é provavelmente uma das obras mais obscuras referidas neste site, e existe muito pouca informação disponível sobre o disco. O MySpace parece ser o único sítio onde se conseguem escutar excertos, não só de The Narcotic Trinket como de projectos anteriores de Aurum, ou John Harford, músico sediado na área de Filadélfia. Todos CDs parecem ser edições de autor e são distribuídos (também em formato digital) através de um sítio chamado Cremation Ground – e não há muito mais. A página do MySpace está cheia de estampas esotéricas que remetem para os pré-rafaelitas, William Blake, ou imagens pré-clássicas, com um certo gosto gótico e pagão, cuja temática se reflecte no som de Kathartes. É um disco de ambientes sombrios e orgânicos, texturas densas no limiar da melodia, que não pareceria deslocado entre as edições da Cold Meat Industry, influenciado por Coil ou Lustmord, que vale mesmo a pena ouvir. A imagem ao lado não corresponde à capa do CD – é uma imagem do website – porque o disco é fornecido sem capa (será incluida numa possível posterior edição convencional) sendo o comprador desafiado a criar uma a seu gosto. [s24-8] zv5g

SEHT > Dead Bees > (PseudoArcana New Zealand, PA097) 17/abr

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Passado quase meio ano desde a sua edição, só agora demos pela existência de Dead Bees, do projecto Seht de Stephen Clover, que tão boa impressão nos deixou em 2006 com The Green Morning. O novo trabalho divide-se em dois longos temas que totalizam 60 minutos. O primeiro, "One Moment" é de um formidável ambientalismo drone, pleno de sugestões alienígenas, com as partículas sonoras estruturais submersas numa evolução de espiral larga, marcada pelo marulhar de vagas oceânicas que se desfazem nas areias de um planeta distante. A estranha letargia assim induzida ao longo de 35 minutos, é bruscamente cortada pelo segundo tema, "A Dance; Four Moments". Ao minimalismo monolítico da primeira parte, contrapõe uma construção em loops à volta de um fraseado melódico que parece retirado de um velho órgão, ao qual se junta um som granuloso e modulado que cria uma estranha atmosfera, semi-orgânica e semi-mecânica, de baixa-fidelidade, uma paisagem sonora que acaba por desaguar em novos drones. Dead Bees – subintulado "((the((quiet)earth))suite)" - oferece duas abordagens diferentes do minimalismo que se equilibram e complementam de forma perfeita. [s37-8] zz3 | zz4

MADTEO > Memoria > (Morphine Italy, DOSER006) 17/abr

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Nascido em Itália, Matteo Ruzzon vive há mais de uma década em Nova Iorque. À cultura multi-étnica da cidade adicionou as suas próprias referências, que explana agora em Memoria, o seu segundo disco depois de um single, "Basiado Beatdown" com Sensational - que também participa neste EP duplo em "Freak Inspector". As nove faixas foram trabalhadas ao longo dos últimos três anos, algumas inspiradas por cidades por onde passou - "Maconha" é dedicada a Ipanema no Rio de Janeiro e "Avenida Liberdade" é devida a São Paulo – mas as correntes que estão na origem de Memoria passam por Lee Perry, italo-disco e black-jazz, tendo desaguado numa doce ondulação entre o deep-house e o dub-techno, com uma tal desenvoltura que ninguém diria estar perante o trabalho de um principiante. Os ritmos submersos e claustrofóbicos apontam para a escuta em headphones, mas a dimensão espacial e o peso do dub são ideais para a pista de dança, e fazem deste álbum um vencedor em dois tabuleiros. Sem downloads nem CD, Memoria está disponível apenas em vinilo. [s18-8] zv5a

HECQ > Night Falls > (Hymen Germany, Y767) 16/abr

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Hecq chega ao quinto álbum de originais com Night Falls e, para quem está familiarizado com o seu trabalho, notam-se algumas alterações de monta, que já se faziam anunciar em 0000, o CD anterior editado há um ano. Os doze temas que compõem este trabalho foram gravados como se se tratasse de uma peça única e contínua, de grande riqueza melódica e composicional, e a comparação de Night Falls à música clássica romântica não é uma ideia disparatada. A utilização de cordas cria uma atmosfera intensa e majestosa, que interage com a electrónica para mostrar sentimentos e emoções. Este lado orquestral que enquadra o ambientalismo, as percussões industriais, as colagens de sons mecânicos mais ou menos abstractos, as diferentes dinâmicas e toda a riqueza de pormenores, fazem de Night Falls uma mergulho num abismo de sintetizadores onde nunca se consegue ver o fundo. [s19-8] zv4a | mp3

WINDY WEBER > I Hate People > (BlueFlea USA, BLUEFLEA014CD) 15/abr

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Windy Weber editou o seu primeiro álbum a solo, com uma música bem diferente daquilo que se lhe conhece no duo Windy & Carl. Em vez do suave ambientalismo drone, I Hate People preenche-se com música pesada e ameaçadora. Dividido em dois temas, "Sirens" tem a duração de 24 minutos, um instrumental baseado em guitarras que sobem e descem como ondas sobre rochas. É um tema assombrado, que não serve certamente para adormecer, antes torna o ouvinte tenso e ansioso. A segunda faixa intitula-se "Destroyed", tem 32 minutos de duração e subdivide-se em três suites. A primeira compõe-se de sobreposições de vozes, arranjadas num coro de respirações e engolfos que nos fazem sentir como que afogados no mar – seja esse mar o oceano ou o da vida quotidiana que é preciso atravessar. A segunda suite torna-se mais ruidosa e agitada, com guitarras distorcidas, baixo e feedback, colocando o ouvinte na expectativa do que virá a seguir. A terceira suite leva-o até ao final do álbum com frequências subsónicas, sons estranhos e pouco familiares, deixando uma esteira de tranquilidade de cinzas. Misturado e masterizado por Warren Defever, dos His Name Is Alive, I Hate People esteve para saír na Kranky, mas a editora acabou por rejeitá-lo. O CD acabou por ter edição da BlueFlea, enquanto o LP saíu na Kenedik, com uma mistura completamente diferente, funcionando como uma peça independente e um complemento ao CD. A capa tem uma foto de 1987 da autora, para o passaporte, então uma jovem punk em início de carreira. [s26-8] zv5a1

DEAF MACHINE > Found Noises > (Raubbau Germany, RAUB-002) 14/abr

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Deaf Machine é o projecto de Mikael Svensson, um dos fundadores dos Megaptera, lendário grupo industrial sueco. O projecto teve início em 1991, com gravações caseiras em computador, utilizando processos avançados, apesar de no conceito original se pretender alcançar um som mais analógico e lo-fi do que o dos Megaptera, influenciado por Controlled Bleeding, Lustmord, Anenzephalia ou Genocide Organ. Para além de dois obscuros registos em cassete, em edição de autor – Transistor e um split com Instant Cold Commando – Deaf Machine teve como pontos altos a participação em duas compilações marcantes, «In The Butcher's Backyard» e «Death Odors», respectivamente da Cold Meat Industry e da Slaughter Prod., acabando por desaparecer sem deixar rasto. Em 2007 a editora Raubbau decidiu recuperar a Deaf Machine com um ambicioso programa de reedição a distribuir por dois CDs. Found Noises é o primeiro a aparecer e contém as cinco faixas da split-cassete acima referida, bem como todos os temas destinados a compilações; outro CD seguir-se-á em breve contendo a outra cassete e restante material não editado. Found Noises é um compêndio de música à base de noise e drones, de sons graves e ultra obscuros, tal como se fazia no início dos anos 90, novamente acessível. [s20-8] zv4b MySpace

YELLOW6 > When The Leaves Fall Like Snow > (Make Mine Music UK, MMM046) 11/abr

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When The Leaves Fall Like Snow é o mais recente trabalho de Jon Attwood, a assinalar dez anos de extraordinária criatividade, tanto em termos de qualidade como de quantidade. Este duplo álbum, com a inconfundível marca melódica do seu autor, foi concebido e trabalhado em Estocolmo durante seis semanas no outono e inverno de 2007. Reflectindo a sua origem, mostra a faceta mais minimal de Yellow6, e cada um dos CDs dá ao ouvinte um modo diferente de se transportar para os cinzentos e brancos das estepes escandinavas. O primeiro disco tem uma maior tranquilidade a perpassar o seu som estratificado, enquanto o segundo, com faixas mais curtas e menos ambiental, revela a mesma beleza e melancolia de uma forma mais intimista. Com uma proximidade estética de Stars Of The Lid ou Labradford, When The Leaves Fall Like Snow é um trabalho que não se esgota facilmente e prova que, com guitarras, pedais de efeitos e algum software, é ainda possível construir maravilhas. [s17-8] zv4 | mp3

RYOJI IKEDA > Test Pattern > (Raster Noton Germany, RN093) 9/abr

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Na sequência de Dataplex, de 2005, Test Pattern é o segundo volume relativo a um projecto multimedia denominado Datamatics, uma pesquisa que recolhe informação (texto, som, fotos, filmagens) para a transformar em códigos de barras e padrões binários. Estes dados são depois processados em ficheiros audio digitais, permitindo-nos escutar o fluir da informação, criando uma banda-sonora extraordinária e inesperada. Estas sequências revelam uma riqueza e variedade nas estruturas microscópicas que compõem o material base de Ikeda. Trabalhando com estas micro-estruturas, elas poderão formar a base de sequências cronológicas, ou revelar qualidade rítmica, pelo que todos os sons presentes são resultado de manipulação. Test Pattern é um disco de grande abstracção, com mudanças de fase, micro-pulsações e descargas de puro noise digital. Dizem que, devido à quantidade de informação a passar em cada momento, os temas não são adequados à conversão em MP3 de alta qualidade, e um autocolante avisa que a audição em alto volume pode danificar o equipamento audio e os ouvidos. Mas, mais que um teste a aparelhagens, Test Pattern é um disco dirigido aos apreciadores da electrónica experimental. [s17-8] zv3

JACK DANGERS > Music For Planetarium > (Brainwashed USA, HAND006) 8/abr

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Coincidindo com o seu décimo álbum como Meat Beat Manifesto, «Autoimmune», Jack Dangers editou também um disco a solo com música destinada ao T.I.T. Planetarium, em Budapeste. As onze faixas de Music For Planetarium são sobretudo drones - drones calmos, drones silenciosos, drones belíssimos que dão uma grande banda sonora para as noites de verão, quando nos deitamos a olhar para as estrelas. Todos sabemos que nisto de space-ambient não há nada de novo no universo – Lustmord, Biosphere e Robert Henke, por exemplo, já passaram por aqui – mas esta música assombrada, de ressonâncias profundas, de estática de ondas radiofónicas, por vezes fria e arrepiante, terá sempre um lugar reservado nas nossas preferências. Tanto mais que, na primeira vez que Jack Dangers se aventura por estes territórios, consegue fazê-lo com consistência e competência. [s25-8] zv3a | mp3

NADJA > Desire In Uneasiness > (Crucial Blast USA, CBR65) 8/abr

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Entre reedições de CD-Rs, regravações de temas antigos e material novo, os Nadja têm já uns onze títulos editados este ano, que não sequer chegou a meio. A este ritmo, arriscam-se a bater Machinefabriek, ou os Acid Mothers Temple, no volume de produção. Desire In Uneasiness inclui cinco jams colossais de distorção eterna, um som fúnebre e etéreo alimentado pelo entrelaçamento das guitarras-baixo de Leah Buckareff e Aidan Baker, que soltam uma vaga de monstruosos riffs sobre uma névoa de efeitos electrónicos em delicadas espirais. Esta é também a primeira vez que os Nadja surgem em formato de trio, com Jakob Thiesen na bateria, em vez das caixas de ritmos que marcaram os discos anteriores, e as diferenças no som da banda são notórias logo nas primeiras batidas fortíssimas de "Disambiguation", a abrir o disco. Esta percussão orgânica transporta os Nadja para novos terrenos de exploração espacial, com algo de jazz e dub no seu psicadelismo cavernoso, ao mesmo tempo que dá ao seu som hipnótico um groove que nunca antes se tinha ouvido. Os temas têm entre sete e dezoito minutos de duração, preenchidos por denso ambient-doom, e apesar de, por vezes, os discos dos Nadja conterem vocalizações, este Desire In Uneasiness foi sensatamente mantido instrumental, o que ajuda a concentrarmo-nos na beleza destas paisagens sonoras. [s23-8] zv6 | mp3

NINE INCH NAILS > Ghosts I-IV > (The Null Corporation USA, HALO26CD) 8/abr

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Sobre este álbum já se escreveram rios de tinta (ou, melhor, já se gastaram muitos terabytes), acerca da forma como revolucionou a relação dos artistas com a indústria musical, acerca de Trent Reznor ter ganho um milhão de dólares em 3 dias, ou acerca de Ghosts I-IV ser talvez o álbum que mais rapidamente vendeu até hoje. Toda esta teoria acerca da valorização de nichos no mercado globalizado pode ser muito interessante, mas discutiu-se muito pouco a música. E é agora, por ocasião da edição em CD, passado mais de um mês sobre todo o burburinho que rodeou o lançamento digital, que retornamos a Ghosts I-IV. E este não era certamente o disco que se esperava. Agrupado em quatro partes, com 9 faixas sem título em cada uma, é um álbum inteiramente instrumental, de tonalidades crepusculares, preenchido por electrónica experimental, algum piano impressionista e ocasionais viragens a terrenos mais abrasivos e reconhecíveis como NIN. Se em Year Zero se pôde dizer que Trent Reznor "regressava dos mortos", com Ghosts I-IV dá um imenso salto em frente e assina aquele que é o seu melhor álbum de sempre - e custa-me bastante relegar o Pretty Hate Machine para a segunda posição. (AP) [s15-8] zv | mp3

MEAT BEAT MANIFESTO > Autoimmune > (Planet Mu UK, ZIQ202) 7/abr

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Jack Dangers, o mentor dos Meat Beat Manifesto, disse recentemente que o género musical do qual se sente mais próximo é o dubstep. Os mais cínicos poderão considerar isto mais uma manobra de marketing de um antigo agitador que pretende insinuar-se perante novas audiências, mas este tipo de considerações revela um desconhecimento do músico em causa. Ao longo de duas décadas, Jack Dangers esteve na génese de imensas tendências e influências da electrónica, e a própria compilação editada no ano passado, Purged /Archive Things: 1982-1988 (dividida com o seu primeiro projecto, Perennial Divide) tem um som que, à primeira vista, se diria de uma qualquer nova banda à procura de contrato. Em Autoimmune, todos os elementos do passado estão presentes – breaks sísmicos, distorção electrónica, referências à música global, samples de diálogos na tv – mas agora com uma matriz dubstep, com toasting e vozes dancehall. A evolução dos MBM é uma constante e, ao contrário de outros músicos que regressam passados uns anos, Jack Dangers actualizou o seu som, apostando na surpresa. Autoimmune é visceral, e com demasiada apropriação para se pensar eventualmente em seguidismo. Vale a pena considerar a edição americana, da Metropolis, que inclui um CD extra com mais 16 faixas – e uma capa diferente, claro. [s17-8] zv2

SCUBA > A Mutual Antipathy > (Hot Fush UK, HFCD002) 7/abr

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Paul Rose é o responsável pela Hot Flush, uma das mais reconhecidas etiquetas de dubstep, mas como produtor – sob o nome Scuba - esforça-se por se manter em segundo plano, tendo editado uma longa série de singles na sub-etiqueta Scuba. Relativamente à cena dubstep ele deseja também um afastamento saudável, e talvez esse facto justifique a sua recente mudança para Berlim, cidade que exerceu uma notória influência no álbum de estreia, A Mutual Antipathy. É um disco que obriga à redefinição do dubstep, escapando a estereótipos e convenções, distante da exuberância que facilitou a entrada do género em clubs como o Fabric e o Ministry of Sound. Sem fazer qualquer concessão à pista de dança, A Mutual Antipathy é um disco inteiramente down-beat, misturado em sequência contínua, com tons de IDM e techno-industrial, minimalismo berlinense e uma fixação pelo electro melódico. A música desenrola-se com fluidez e coesão e, se há algo questionável, será a opção por um monolitismo talvez exagerado nos ritmos, na recusa deliberada da diversidade de andamentos que o dubstep e o UK garage permitem. Isto não impede que A Mutual Antipathy seja um dos álbuns mais importantes saídos da cena dubstep, e, quando um dia se fizer a história destes anos, a sua referência será incontornável. [s16-8] zv1

BOCHUM WELT > R.O.B. (Robotic Operating Buddy) > (Rephlex UK, CAT192CD) 7/abr

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Gianluigi Di Costanzo, ou Bochum Welt, é uma personagem bem conhecida no meio electro / techno, e um dos primeiros nomes editados na Rephlex de Richard James. R.O.B. (Robotic Operating Buddy) é uma compilação em duplo CD, que retoma o nome do último single 10" editado em finais do ano passado, e confronta o passado e o futuro de Bochum Welt. O primeiro disco contém novas faixas e remisturas, enquanto o segundo reune a totalidade do seu catálogo na Rephlex, mais alguns temas dispersos, em ficheiros .wav - o que poupa imenso tempo e dinheiro a quem pretender completar a colecção. A música é bastante agradável, passando pelo techno post-ambient inspirado em Aphex Twin, pela sua particular exploração do minimalismo, e pelo synth-pop melódico com raízes nos anos 80, numa mistura equilibrada entre a música de consumo doméstico e a que é direccionada às pistas de dança mais futuristas. Ambos os discos têm um toque nostálgico de ficção-científica sobre um futuro que nunca chegou a acontecer, mas confirmam Bochum Welt como sinónimo de inovação e de braindance de primeira classe. Totalizando 51 faixas, espera-se que R.O.B. (Robotic Operating Buddy) dê finalmente a Bochum Welt o reconhecimento que há muito ele merece. [s16-8] zw1a1a1b3a

THE STRANGER > Bleaklow > (V/Vm Test UK, VVMTCD26) 4/abr

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Para além do terrorismo sónico que, como V/VM, tem espalhado ao longo dos últimos dez anos, James Kirby assinou também intermitentemente alguma música de grande densidade sob as designações The Caretaker e The Stranger. Bleaklow é o regresso deste último alter-ego, descrito pelo autor como uma espécie de elo perdido entre o noise de V/VM e as ambiências etéreas de The Caretaker, dez anos depois de um álbum auto-intitulado, limitado a 250 cópias e editado em CD-R pela Phthalo. Bleaklow é um álbum de ambientes ásperos, onde um ocasional raio de sol rompe as atmosferas cinzentas e chuvosas dadas por uma inacreditável sobreposição de drones, vagas de som e estruturas percussivas, por vezes não muito distantes do trabalho de Fennesz e Tim Hecker. Em simultâneo foi editada uma versão especial limitada a 100 exemplares de Bleaklow, por subscrição, que dá acesso a 14 temas extra – outtakes e versões – num total de 80 minutos. [s20-8] zw1a1a1b3b | mp3 | videos

... e ainda: #16 abr/2008

AETHENOR > Betimes Black Cloudmasses > (VHF USA, VHF111)
AVROCAR > Against the Dying of the Light > (Make Mine Music UK, MMM037)
BEEHATCH > Beehatch > (Lens USA, LENS0019)
BEN NASH > The Seventh Goodbye > (Aurora Borealis UK, ABX024CD)
BJ NILSEN & STILLUPPSTEYPA > Passing Out > (Helen Scarsdale Agency USA, HMS013CD)
BRENDAN MURRAY > Commonwealth > (23five USA, 23FIVE013)
BURIAL HEX > Initiations > (Aurora Borealis UK, ABX022)
CLOUDLAND CANYON > Lie In Light > (Kranky USA, KRANK117)
JULY SKIES > The Weather Clock > (Make Mine Music UK, MMM027)
MAD EP > Bass.hed > (Ad Noiseam Germany, ADN90)
PHILIP JECK > Suite. Live In Liverpool > (Touch UK / Autofact USA, TONE29)
PROYECTO MIRAGE > Turn It On > (Ant Zen Germany, ACT215CD)
RHADOO > Dor Mit Oru > (Cadenza Germany, CADENZA22)
ROBIN SAVILLE > Peasgood Nonsuch > (Static Caravan, VAN160CD)
THE SILVERMAN > Blank For Your Own Message > (Beta-Lactam Ring USA, MT208)
SUTCLIFFE JUGEND / PRURIENT > End Of Autumn > (Troubleman Unlimited USA, TMU194)
THISQUIETARMY > Unconquered > (Foreshadow Productions Poland, FSHCD007)
ZBIGNIEW KARKOWSKI & DAMION ROMERO > 9 Before 9 > (Blossoming Noise USA, BN035CD)

ARDITI > Omne Ensis Impera > (Equilibrium Music Portugal, EQM020) 31/mar

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Chegou finalmente o aguardado novo álbum do duo sueco Arditi. A sensação de determinação que perpassa a sua música e que os colocou no topo da cena marcial / industrial / neo-clássica permanece intacta, evocando um sentido de dever e dedicação pelo qual eram conhecidas as tropas italianas de elite durante a Grande Guerra, às quais os Arditi retiraram o nome. Omne Ensis Impera traz uma força adicional às composições do duo, com loops orquestrais épicos e percussões bombásticas em grande destaque, suportando a atmosfera poeirenta e sufocante que eles tão bem dominam através da utilização de sintetizadores, com colagem de discursos obscuros e narrações vívidas. A influência do futurismo italiano acompanha desde o início o trabalho dos Arditi, e Omne Ensis Impera pode ser uma versão moderna da glorificação da guerra como expressão artística, para lá da violência inerente e do sentido de heroísmo intrínseco. Nas suas próprias palavras: "Nós admiramos a guerra. Não porque faz morrer pessoas, mas porque faz com que as pessoas vivam." [s15-8] zw1a1a1b3 | mp3

THE BLACK DOG > Radio Scarecrow > (Soma Scotland, SOMACD067) 31/mar

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Radio Scarecrow é o resultado de dois anos de trabalho, de desenvolvimentos e realizações constantes que culminam neste disco aguardado com grande expectativa. Influenciado pelo interesse do trio no ocultismo e matérias esotéricas – como, por exemplo, o designado EVP (electronic voice phenomenon) – o novo álbum é um avanço em relação a Silenced, de 2005, com uma atmosfera diferente marcada por batidas mais rápidas e linhas de baixo mais pesadas. A sua sonoridade clássica, conotada com os dias da "artificial intelligence", foi absorvendo influências ao longo do percurso e incorporou agora uma variedade de sons actuais, do dubstep ao techno industrial, sem se descaracterizar. Radio Scarecrow, é um álbum que se revela progressivamente, com uma enorme graciosidade, e é fantástico. Os fans que acompanham os Black Dog desde os tempos da Warp vão adorar, e quem ainda não os conhece vai certamente querer ouvir mais. [s14-8] zw1a1a1b | mp3

JANEK SCHAEFER > Alone At Last > (Sirr.ecords Portugal, SIRR0031) 27/mar

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Reunindo diversas obras realizadas por encomenda para compilações ou instalações entre os anos de 1997 e 2007, Alone At Last é uma boa mostra da primeira década de criatividade de Janek Schaefer. Apesar do seu método de trabalho se ter mantido mais ou menos inalterado ao longo dos anos – utilização de sons ambientes, gravações de campo, manipulação de discos de vinilo, amplificadores, pedais de efeitos e mesa de mistura – os resultados apresentam um grande eclectismo, tanto em termos musicais como conceptuais, e conquistaram um reconhecimento alargado. Para além de tudo isto, a música de Janek Schaefer tem a capacidade de despoletar a criação de imagens visuais a partir das memórias passadas, processos designados na terminologia filosófica por anamnese e sinestesia, ao passo que, em termos estilísticos, coloca uma grande ênfase no movimento orgânico e no pormenor. Alone At Last é uma óptima porta de entrada para a discografia de Janek Schaefer. [s22-8] zw1a1a1b4

COH > COH Plays Cosey > (Raster-Noton Germany, RN91CD) 26/mar

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COH Plays Cosey é o primeiro trabalho de uma colaboração que deve continuar no futuro, entre COH - ou Ivan Pavlov – e Cosey Fanni Tutti, conhecida dos Throbbing Gristle, do duo Chris & Cosey / CTI e ainda pelo seu trabalho a solo. COH Plays Cosey é um disco que reflecte a intimidade subjacente a esta colaboração, onde Ivan interpreta musicalmente as gravações de voz registadas por Cosey, num diálogo que vai para além das palavras e do intelecto. Numa aventura sónica explícita, COH interpreta Cosey sem inibições, sem medo e sem questionar o conteúdo proposto. COH interpreta Cosey como um actor, tornando-se nela pelas elaboradas transformações da sua voz. Armado do seu minimalismo digital, COH molda um álbum sem usar nada mais que esses registos de voz, do que resulta um objecto certamente estranho no universo normalmente disciplinado e pouco dado a emoções da Raster-Noton. A ideia não é inédita - Maja Ratkje editou na Rune Gramoffon «Voices», um álbum de electrónica abstracta que partia de premissas similares – mas COH preserva o ênfase da palavra e é o conteúdo da linguagem que define este trabalho, para além da voz geradora de ritmos robóticos, dos sussurros transformados em texturas de drones, até mesmo quando as palavras estão ausentes. [s15-8] zw1a1a1b2

AMBASSADOR21 > Justified Thirst For Blood > (Invasion Wreck Chords Belarus, INV044) 25/mar

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Depois de um álbum duro e implacável como Fuck All $y$tem$, eis a nova edição dos bielo-russos Ambassador21, a colectânea Justified Thirst For Blood. Os temas foram recolhidos sobretudo nos CD-Rs e álbuns que compõem a discografia dos A21, destacando-se Weight Of Death (2006) que contribui com 4 faixas, estando presentes ainda temas de Akcija e Dogma (ambos de 2004), do referido Fuck All $y$tem$ (2007) e ainda duas versões ao vivo gravadas em Paris e Florença durante o Fuck All Systems Tour 2007. De fora ficou curiosamente o primeiro álbum, Invitation To Execution de 2001. Num total de 15 temas que ultrapassam os 63 minutos de duração, está aqui presente tudo o que descreve o som de Ambassador21: uma esmagadora muralha de som, uma batida dura e distorcida, breaks pesados, a precisão dos riffs de guitarra e, evidentemente, a imagem de marca do duo de Natasha e Alexey Protasov: ferozes duelos vocais e letras arranhadas. Electrónica pesada e descomprometida, é isto Justified Thirst For Blood. [s21-8] zv4b1 | MySpace | mp3 | video

ANDO > Habitat > (BineMusic Germany, BINE017CD) 23/mar

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A música de Taylor Deupree tem vindo a conhecer uma cada vez maior presença de instrumentação convencional, nomeadamente guitarras acústicas, integradas no seu paisagismo digital. O pseudónimo Ando assinala no entanto um regresso a processos de composição e interpretação que utilizou em meados dos anos 90, jogando com tempos múltiplos, delays, feedback e repetição - experiências com o micro-som que voltam a estar na ordem do dia - alinhando pelo minimalismo techno. Habitat, um mini-álbum de 26 minutos divididos em quatro faixas, iniciado em 2004 e várias vezes interrompido na sua realização, é agora apresentado como uma amostra sonora de um álbum a publicar futuramente. O que nos é dado a ouvir é promissor – mas outra coisa não seria de esperar de um dos mais interessantes músicos que há 14 anos tem vindo a marcar o panorama electrónico. Edição limitada a 500 exemplares. [s16-8] zw1a1a1b2a

BEYOND SENSORY EXPERIENCE > No Lights In Our Eyes > (Cold Meat Industry Sweden, CMI182) 20/mar

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Após meses das longas noites nórdicas, de intensas sessões de gravação, e de explosão criativa, os Beyond Sensory Experience lançam No Lights In Our Eyes, um passo em frente no desenvolvimento do seu som característico e tantas vezes elogiado. A análise da vivência, que se iniciou em Pursuit Of Pleasure e The Dull Routine Of Existence, avança e debruça-se sobre a morte e os aspectos subconscientes da vida. Musicalmente, No Lights In Our Eyes vai desde o minimalismo mais frio a sombrias erupções orquestrais, que se tornam num estímulo viciante para a vossa visão interior. Preparem-se para atmosferas obscurecidas de primeira apanha, com a característica marca BSE. [s15-8] zw1a1a1b1 | mp3

OOPHOI > An Aerial View > (Glacial Movements Italy, WSGM001) 19/mar

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An Aerial View é o CD inaugural das Würm Series, uma sequência paralela que a Glacial Movements vai dedicar a álbuns compostos por uma única faixa, tematicamente inspirados pela última glaciação europeia. O termo "Würm" é a designação dessa glaciação, que terminou há cerca de 10 mil anos, e tem origem num rio dos Alpes onde ela foi primeiramente identificada. No ponto máximo dessa Idade do Gelo a maior parte da Europa era estepe-tundra, com a Escandinávia e Ilhas Britânicas sob uma camada de gelo, tal como a cordilheira dos Alpes, também sob campos de gelo e glaciares. É este tipo de paisagem que serve de ponto de partida para "An Aerial View (For Theremin And Synths)" de Oophoi, um tema a rondar os 65 minutos, preenchidos pelo ambientalismo etéreo e frio que tem caracterizado as edições da etiqueta italiana. Evitando as tonalidades mais sombrias que tantas vezes surgem associadas a este tipo de imaginário, Oophoi preferiu associar-se a uma paleta sonora mais aberta e luminosa, num enquadramento de grandes planos – a "vista aérea" a que se refere o título e espelhada nas fotografias do digipak - como uma silenciosa viagem de balão sobre um manto de neves perpétuas, moldadas lentamente pelos elementos naturais. An Aerial View é um longo travelling sonoro, de textura mais dinâmica na primeira parte, animada por sons circulares e loops aspirados de ressonância metálica, para assumir na segunda metade uma estrutura mais minimal de sons, em notas alongadas que se sobrepõem em inúmeras camadas, deslizando em sentido único - aproveitando a invulgar capacidade do teremin para desenhar drones vítreos e cristalinos – rumo a um estado final de suspensão que faz lembrar a "Discreet Music" de Eno. Oophoi, ou Gianluigi Gasparetti, um dos nomes mais marcantes do actual ambientalismo europeu, tem em An Aerial View um disco a não perder, capaz de anular a passagem do tempo e envolvente do primeiro ao último instante. (AP) [s13-8] zw1a1a1

ROBERT RICH & IAN BODDY > React > (DiN UK, DIN29) 18/mar

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Este disco assinala a terceira colaboração entre os seus autores, depois de Outpost (2001) e Lithosphere (2005), mas, ao contrário dos álbuns anteriores, React não é um trabalho de estúdio; trata-se do registo da primeira apresentação ao vivo, em Filadélfia, para o programa de rádio Star's End no concerto de comemoração do 30.º aniversário, em Junho de 2007. É um encontro de tecnologias analógicas e digitais, com espirais de som e texturas nebulosas que revelam uma profundidade para lá da superfície aparente, onde as caixas de ritmos irrompem por vezes em explosões de energia cinética. Reconhecem-se um par de temas de Outpost ("Ice Fields" e "The Edge Of Nowhere") e o título-tema de Lithosphere, apresentados de uma forma mais enérgica, em versões mais dinâmicas. React contém uma música que ondula entre paisagens abstractas e divagações suaves, onde confluem momentos de maior vitalidade devidos ao poder dos baixos analógicos e percussões processadas, adicionados aos teclados, flautas e glissandos de guitarra. [s14-8] zw1a1a1a

DEATH IN JUNE > The Rule Of Thirds > (NER UK, BADVC51) 18/mar

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Douglas P. carrega o fardo de ter estado na origem de um novo género musical, o folk-apocalíptico, e apesar de ser autor de excelentes álbuns durante anos a fio, de cada vez que edita um disco novo as expectativas são, talvez, demasiado exageradas. Talvez seja essa a razão de só agora aparecer o primeiro álbum "a sério" dos Death In June desde All Pigs Must Die, de 2001, isto apesar de Douglas P. não ter estado parado nos anos que entretanto se passaram - ocupou-os com novas misturas e regravações, uma colaboração com Boyd Rice, duas colectâneas, discos ao vivo e repescagens nos seus arquivos. The Rule Of Thirds é o inevitável regresso aos originais, retomando um modelo despojado, que foi utilizado ao longo da última década, à excepção da utilização sóbria de diálogos samplados e manipulações de som, numa sonoridade próxima de álbuns como But, What Ends When The Symbols Shatter? ou Rose Clouds Of Holocaust. The Rule Of Thirds é um disco meticuloso que encerra em si a verdadeira essência de Death in June. Poderá não trazer nada de novo mas, 26 anos passados sobre o início dos Death In June, Douglas P. não tem nada a provar. É muito simples: quem acompanhou Death In June até hoje não vai sair desapontado; quem ficou para trás ou não se convenceu não é agora que se vai aproximar ou converter. [s13-8] zw1a1a | mp3

OREN AMBARCHI & Z'EV > Spirit Transform Me > (Tzadik USA, TZ8123) 18/mar

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Oren Ambarchi é um compositor e multi-instrumentista que frequenta os meandros mais escuros e narcóticos da música ambiental, industrial e electrónica. O seu novo projecto conta com a colaboração do conhecido percussionista e compositor Z'ev e, apesar de ambos editarem regularmente na Touch Records, apresentam o novo trabalho na Tzadik de John Zorn. Spirit Transform Me é composto por três temas hipnóticos inspirados nas primeiras letras do alfabeto hebreu. Os seguidores de Ambarchi poderão ficar um pouco surpreendidos com a densidade instrumental deste disco, em comparação com uma linha mais esquemática que tinha seguido em recentes composições à guitarra. A mistura final pode ter uma aparência quase esmagadora, mas a sonoridade contém a dualidade de um sentido de fragilidade que coexiste com a intensidade enérgica. Oren Ambarchi e Z'ev levam a exploração sonora da guitarra e percussão para novos horizontes. [s13-8] zw1a1

BLACKSAND > Barn > (Asusu UK, AS001) 17/mar

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Blacksand é um duo formado por Nick Franglen e Charlie Casey que, armado de guitarras e pedais de efeitos, se dedica à exploração de drones, com sons incidentais, sobreposições, loops, distorção e meios electrónicos. Partindo da improvisação e passando pela manipulação, o seu trabalho resulta num som complexo e multi-facetado que vai desde a clareza acústica aos turbilhões de electrónica. Barn é uma óptima estreia, e apesar de ser tocado apenas em guitarras, foi gravado ao vivo e sem overdubs. O som dos instrumentos nem sempre parece o que é; da sua diversidade e da multiplicidade de efeitos que lhe é aplicado, nasce uma imensidão de texturas e sons improvisados e imprevisíveis, que tornam cada performance num acontecimento único e irrepetível. Barn tem uma edição limitada a mil exemplares e um dos CDs tem um "golden ticket" que dá direito a um concerto privado dos Blacksand. Só por curiosidade resta dizer que Nick Franglen pertenceu aos Lemon Jelly – só mesmo por curiosidade, porque estes Blacksand não têm nada a ver. [s19-8] zw1a1b

RAMESES III > Basilica > (Important USA, IMPREC178) 17/mar

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Este projecto britânico composto basicamente por Spencer Grady e Steve Lewis, com a colaboração frequente de Daniel Freeman, apesar de uma discografia que se vai tornando extensa, tem apenas um álbum propriamente dito, Matanuska, editado em 2006. Basilica, não é ainda o esperado segundo álbum, apesar de ser um CD duplo. O primeiro disco é composto por quatro temas, quatro remisturas para trechos tocados ao vivo no Red Rose Club a 2 de Março de 2006, retrabalhados por Robert Horton, Keith Berry, Gregg Kowalsky e Astral Social Club, todos eles nomes que, sem grande surpresa, circulam em esferas musicais próximas do som de Rameses III. Quanto ao segundo disco, com cinco temas denominados "Origins", também foi registado ao vivo mas trata-se de material novo. Basilica poderá ser um registo atípico dos Rameses III, quando comparado com a laboriosa construção dos seus trabalhos em estúdio, mas o minimalismo destes drones semi-acústicos é absolutamente deslumbrante na sua pureza primordial. [s14-8] zw1a2 | mp3

CLARO INTELECTO > Metanarrative > (Modern Love UK, LOVE038CD) 14/mar

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Nos dias que correm, Claro Intelecto - pseudónimo do músico Mark Stewart, de Manchester – é conhecido sobretudo pelas suas "Warehouse Sessions", quatro singles de 12 polegadas de techno descarnado e batida dura editados na Modern Love entre 2006 e 2007, mas Metanarrative promete quebrar a matriz estabelecida por essas edições, colocando o ênfase na melodia. Segundo o autor, a progressão narrativa do álbum é muito importante, representando um ciclo de vida, introduzindo várias ideias e influências ao longo dos seus 40 minutos. Quatro anos passados sobre o excelente Neurofibro, este segundo álbum partiu de um grupo de cerca de 100 faixas, entre as quais foram seleccionados os oito temas que o integram. Metanarrative é uma obra concisa e emotiva, equilibrada nos elementos em oposição: a melodia e o peso dos baixos, o conceptualismo introspectivo e a percussão cadenciada, os arranjos harmoniosos e uma paleta sonora pouco convencional. [s11-8] zw1a

CISFINITUM > Tactio > (Mechanoise Labs France, MN033) 5/mar

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Já se fez por aqui referência a Cisfinitum, o nome sob o qual o russo Evgeny Voronovsky foi construindo uma obra musical sem par, a partir do sincretismo com que aborda um género por vezes demasiado codificado, como o ambient. Tactio é o seu novo álbum, uma gravação ao vivo de um concerto na Catedral de S. Pedro em Bremen, em 24 de Novembro de 2005. A acústica particular do edifício favorece a natureza da actuação, transmitindo-lhe um efeito de amplificação e ligando-a inexoravelmente ao seu contexto. Apresentado sob a forma de seis faixas contínuas, Tactio é uma composição contemplativa de drones vibrantes, sinos em reverberação e ressonância sintetizada, que se desenrola graciosamente desde a tonalidade celestial do início até ao pulsar telúrico do seu clímax. É um trabalho elaborado na sua simplicidade, um dos melhores no seu género, e confirma Cisfinitum como um dos maiores talentos vindos da Rússia. [s24-8] zw3 | mp3

RHYS CHATHAM & HIS GUITAR TRIO ALLSTARS > Guitar Trio Is My Life! > (Radium / Table of the Elements USA, TOE813CD) 4/mar

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Para comemorar os 30 anos do álbum Guitar Trio, Rhys Chatham embarcou numa digressão norte-americana acompanhado por um colectivo variável que incluiu músicos como Lee Ranaldo, Thurston Moore e Kim Gordon (dos Sonic Youth), John McEntire, Jeff Parker, e Doug McCombs (dos Tortoise), Efrim Menuck e Thierry Amar (dos Godspeed You! Black Emperor / A Silver Mt. Zion), Owen Pallett (Final Fantasy), Rob Lowe (Lichens), Andrew Broder (Fog), Greg Norton (Hüsker Dü) e muitos outros. A maioria dos concertos viu o Trio expandido para sete ou oito guitarristas, e numa das datas contou até com um sexteto de cordas. Para imortalizar este evento de dimensões épicas, foi agora editado um triplo-álbum, Guitar Trio Is My Life!, com um resumo da digressão. Tendo em conta que Rhys Chatham entrou na música pela porta dos fundos – antes de ser aluno de Tony Conrad e Morton Subotnick começou por afinar pianos para La Monte Young e Glenn Gould – o seu ponto de viragem terá decorrido durante a explosão do punk nova-iorquino, acabando por se tornar numa das grandes influências na génese da no-wave. Guitar Trio, um drone de um único acorde, foi uma afirmação terminal do minimalismo punk e o ponto de partida para uma dos mais curiosos percursos musicais saídos da vanguarda nova-iorquina de finais dos 70s. Este triplo CD é uma homenagem ao LP original e a um dos fundadores do noise-rock, sob a sua própria direcção, recordando que sem Chatham nunca teriam existido os Sonic Youth, nem Jesus & The Mary Chain, nem My Bloody Valentine... [s10-8] zw1

JAMES RUSKIN > The Dash > (Tresor Germany, TRESOR233) 3/mar

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É o regresso de uma das referências do techno britânico, sete anos depois de Into Submission, marcado ainda pela influência da cena berlinense, à qual James Ruskin se encontra fortemente ligado. Muita coisa mudou no mundo musical durante este espaço de tempo – os computadores tornaram-se estúdios, os downloads digitais revolucionaram a indústria e as barreiras entre rock e música de dança tornaram-se mais difusas – mas Ruskin também não esteve propriamente parado; apenas, segundo as próprias palavras, não sentiu a necessidade de compor um álbum, tendo-se dedicado aos singles e remisturas, enquanto renovava o seu estúdio e pensava em novas formas de abordagem musical. Os dois álbuns anteriores, ambos editados na Tresor, eram complementares e marcados por um som mais extremado, num techno urbano de tonalidades escuras, mas este quarto álbum significa um recomeço. Há uma maior descontracção, momentos mais ambientais e downbeat coexistem com o apelo da pista de dança, procurando fazer a ligação da música da noite ao aconchego do sofá. The Dash é dedicado a Richard Polson, amigo e co-fundador da etiqueta Blueprint com James Ruskin, recentemente desaparecido. [s19-8] zw2

AUTECHRE > Quaristice > (Warp UK, WARPCD333) 3/mar

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Quaristice foi considerado o álbum mais acessível dos Autechre desde o distante Amber, e o facto da sua música complexa conseguir tomar uma aparência de simplicidade é, só por si, uma autêntica forma de arte. É um disco mais generoso que a maior parte dos álbuns recentes, com faixas mais amigáveis e de duração mais curta – são 20 no total. Por vezes são reconhecíveis formas passadas de música electrónica, sobretudo hip-hop, electro e house anteriores aos anos 90, referenciadas pelos Autechre como a música que marcou a sua juventude, mas esses elementos foram moldados à foma como o duo aborda a criação musical. A uma primeira impressão as faixas podem parecer descarnadas, mas depois torna-se perceptível a subtileza da produção. Quaristice tem momentos de profunda beleza, de um modo diferente de tudo quanto o precedeu, é melódico e impressionista, mais aberto e espontâneo, tornando-se cada vez mais apelativo com o acumular de audições. Com nove álbuns e um número igual de EPs no activo, é inegável que Sean Booth e Rob Brown continuam cheios de ideias válidas. (Será entretanto editada uma versão limitada que incluirá um segundo CD com novas misturas e versões de alguns dos temas) [s10-8] zw

... e ainda: #15 mar/2008

ABSOLUT NULL PUNKT > Absolute Magnitude > (Blossoming Noise USA, BN031CD)
APM > Sprint Mill > (ICR UK, ICR68)
BENGA > Diary Of An Afro Warrior > (Tempa UK, TEMPACD010)
BLEEDING HEART NARRATIVE > All That Was Missing We Never Had in the World > (Tartaruga UK, TTRCD001)
CHANDEEN > Teenage Poetry > (Kalinkaland Germany, KAL33)
DIAMANDA GALÁS > Guilty, Guilty, Guilty > (Mute UK, CDSTUMM274)
ENRICO CONIGLIO > dyanMU > (Psychonavigation Ireland, PSY022)
FELICIA ATKINSON & SYLVAIN CHAUVEAU > Roman Anglais > (O Rosa UK, ROS02)
FREIBAND & MACHINEFABRIEK > Oahu > (Low Point UK, LP019)
NADJA & NETHERWORLD > Magma To Ice > (Fario/Fear Drop France, FARIOCD10)
VALET > Naked Acid > (Kranky USA, KRANK116)

ARCANA > Raspail > (Kalinkaland Germany, KAL32) 29/fev

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Desde o seu início, em 1996, os Arcana tornaram-se uma das bandas mais importantes dentro de uma certa sonoridade neo-clássica, com secções de cordas sintetizadas e orquestrações grandiosas. Peter Bjärgö, então Peter Pettersson, baseava a música de Arcana na sua própria visão romântica sobre a Idade Média. Os seis anos seguintes, com quatro álbuns pelo meio, passou-os ligado à Cold Meat Industry, acompanhado nos três primeiros discos por Ida Bengtsson, a vocalista principal. Iniciou o projecto paralelo Sophia, fundou a sua própria editora e gravou também um álbum com Gustaf Hildebrand. Após a saída de Ida Bengtsson, Ann-Mari Thim tomou o seu lugar nos Arcana. Posteriormente entraram outros acompanhantes, e aquilo que começara por um projecto a solo acabou por se transformar num quinteto. Quatro anos decorridos sobre o último álbum, os Arcana editam o novo trabalho, Raspail, na alemã Kalinkaland, trazendo de novo a atmosfera mágica e sumptuosa que os apreciadores da banda tão bem conhecem. Influenciados sobretudo por Dead Can Dance, como eles próprios têm a humildade de reconhecer, mas também por Peter Gabriel ou David Sylvian, os Arcana misturam electrónica com guitarra acústica, piano com percussões orientais, e as imaculadas vocalizações que sempre os distinguiram. E neste ponto particular, nunca se ouviram tantas vocalizações num disco dos Arcana como em Raspail, sobressaindo a profundidade emocional do seu particular universo de beleza e melancolia, paredes-meias com uma aura de mistério. Dos tons medievais aos neo-clássicos, das atmosferas sombrias aos coloridos étnicos, Raspail revela-se uma obra imensa. [s12-8] zz1a1b1a1a1a1 | mp3

@C > Up, Down, Charm, Strange, Top, Bottom > (Crónica Electrónica Portugal, CRONICA031) ??/fev

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Com um título fisgado na realidade intangível das partículas sub-atómicas, Up, Down, Charm, Strange, Top, Bottom é o sétimo álbum dos portugueses @C, e o terceiro na sua própria editora. Os ficheiros que estiveram na origem do disco foram registados entre 2002 e 2007, em diferentes locais espalhados por vários países, incluindo apresentações ao vivo, field recordings e trabalho de estúdio, e também na samplagem de outros músicos que com eles se cruzaram em estúdio ou em concertos. O CD reflecte essa diversidade na sua proposta sonora e na estrura pouco convencional. Dos quatro temas que o compõem dois destacam-se pela alta minutagem: o primeiro, "62", com cerca de 20 minutos e o último, "61" com o dobro dessa duração; entre eles dois curtos interlúdios, "71" e "72", que não chegam aos 2 minutos. Num processo de composição que os próprios autores compararam ao trabalho de escultura - no modo como a parte interage com o todo - ou com a fotografia - na opção do enquadramento - o álbum pôs questões sobre modelos de realização, formatos, e a própria essência do que é expectável num CD – no fundo, um objecto que se torna em música cada vez que é tocado. Não se contando entre os nomes mais conhecidos na área do microsom, o duo de Miguel Carvalhais e Pedro Tudela tem dado contribuições importantes ao género, e Up, Down, Charm, Strange, Top, Bottom não é, nesse ponto, uma excepção. [s11-8] zz1a1b1a1a1a

ENDUSER > Left > (Offshore Industries / Ohm Resistance USA, OHM7M) 26/fev

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No primeiro álbum de Enduser após se ter mudado para San Francisco, na costa oeste dos Estados Unidos, confirma-se o seu gosto por temas mais melódicos e downtempo, até aqui menos habituais, intercalados por faixas de drum'n'bass agreste e descentrado. Artista prolífico, com obra espalhada por um grande número de editoras e de sub-géneros da electrónica, Enduser deixou ficar para trás a samplagem incansável de Pushing Back, o antecessor com data de 2006. Um álbum de grande intensidade musical e pessoal, Left mostra o peso dos argumentos estéticos de Lynn Standafer, e fica marcado pelos convites feitos a outros artistas para colocar a voz sobre as batidas incisivas por si criadas. Na diversidade enérgica de Left, destaque para o imediatismo de "Black Light" na voz de Sol Thomas, para as remisturas e colaborações de Counterstrike e Scorn, e ainda para as pouco canónicas investidas drum'n'bass - que já lhe valeram um coro de merecidos elogios nos meios afectos ao género, apesar de este não ser própriamente um álbum de d&b. [s10-8] zz1a1b1a1a1

CARL CRAIG > Sessions > (!K7 Germany: K7224CD) 26/fev

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Esta impressionante compilação de 23 faixas, escolha pessoal de Carl Craig, faz um resumo do seu excelente trabalho, desde os tempos de Detroit sob designações como Paperclip People ou 69, passando por singles de sucesso como "Throw", e faixas de pura inovação, como "Bug In The Bassbin". Não ficaram de fora os trabalhos de remistura para outros autores, como uma versão inédita de "In The Trees" dos Faze Action, tema que marcou uma certa house dos anos 90, ou momentos de consagração popular, como a remistura para os Junior Boys que lhe valeu a nomeação para um Grammy, ou ainda a remistura de "Kill 100" dos X-Press 2 que invadiu os clubs há um ano e meio. Sessions é o culminar do estatuto de ícone do techno associado a Craig, um olhar sobre o passado daquele que foi um dos pioneiros do género e, simultaneamente, um vislumbre do futuro para um dos seus mais influentes e visionários cultores. O primeiro CD mostra a faceta mais acessível, com influências da house mais deep e progressiva, enquanto o segundo se aproxima da pista de dança, recordando que o mestre do techno melódico tem um lado mais sombrio. Sessions é a porta de entrada ideal para a discografia de Carl Craig, pela sua abrangência e importância, mas destina-se também aos conhecedores, reservando-lhes algumas surpresas para rentabilizar o investimento, já que praticamente metade das faixas nunca foram editadas. Sessions é uma verdadeira lição de história para qualquer apreciador de música electrónica, e a melhor forma de assinalar os 20 anos de carreira de Carl Craig. [s9-8] zz1a1b1a1a

BARRY LYNN > Balancing Lakes > (Planet Mu UK, ZIQ162CD) 25/fev

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Barry Lynn, que sob a designação Boxcutter se tornou num dos arautos do dubstep mais inovador, decidiu publicar uma selecção do seu arquivo, temas datados de 2002 a 2005, que precederam o surgimento da sua fase mais conhecida. Esta colecção de gravações iniciais testemunha o encontro de estilos numa fase inicial, inventariando breakbeats, garage, dub e jazz, a par de abstraccionismos IDM que entretanto foram aparados do som Boxcutter, notando-se já o interesse pelo UK garage e two-step, com alguns momentos de dubstep tal como o conhecemos. Balancing Lakes evidencia a maturidade do talento e da técnica de Barry Lynn já nesta época, faltando-lhe apenas saber para onde os direccionar. E se o seu trabalho como Boxcutter é considerado eclético, Balancing Lakes poderá provocar ainda mais arrepios, pois Barry Lynn lança mão a tudo o que marcou a electrónica da década e meia anterior a estes temas. Com alguma falta de originalidade, é ainda assim um bom trabalho, coerente apesar da diversidade, e dirigido sobretudo aos apreciadores dos dois álbuns de Boxcutter, pois encontrarão aqui o contexto que ajuda a explicar a evolução desse som. [s16-8] zz1a1b1a1b

KELPE > Ex-Aquarium > (DC Recordings UK, DCR82CD) 25/fev

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Ex-Aquarium é o segundo álbum de Kel McKeown, conhecido por Kelpe, sucessor de Sea Inside Body de 2004. Para quem se interrogou sobre o que ele teria andado a fazer nestes últimos três anos – para além do máxi "Sunburnt Eyelids" -, a resposta está na audição do disco. A temática aquática mantém-se, não apenas nos títulos dos temas como nos field-recordings de sons de água, aproveitados na composição de um downtempo com ritmos quebrados que faz lembrar os suspeitos do costume – Four Tet, Prefuse 73 ou Dabrye – acrescidos da introdução de um factor melódico em linhas de baixo e acordes de guitarra flutuantes. Ex-Aquarium, marca uma evolução do som no sentido de um maior peso da instrumentação ao vivo, com Kel McKeown a sentar-se à bateria, marcando os ritmos enquanto as suas mutações sónicas emergem triunfantemente da água. Com influências que vão desde a sonoridade clássica da Warp à folk assombrada de John Renbourn, ao minimalismo de Steve Reich, ou às paisagens percussivas de Do Make Say Think, essa diversidade reflecte-se nas deambulações sonoras de Kelpe, um percurso em constante mutação que certamente continuará a surpreender. [s9-8] zz1a1b1a1

JASPER TX > This Quiet Season > (Slaapwel Belgium, SLAAPWEL003) 19/fev

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A Slaapwel é uma etiqueta quase artesanal, cujas edições são limitadas, com embalagens feitas manualmente. Para além disso, especializou-se num ambientalismo minimal e nocturno, apresentando-se como música para adormecer - de acordo com a sua designação (que em português se poderia traduzir por "dorme bem"). This Quiet Season, o novo álbum de Dag Rosenqvist sob o nome Jasper TX, é composto de 6 faixas com a duração de 40 minutos, um disco de belíssima música drone, à excepção do curto tema "Moments", tocado ao piano. Como acontece com toda a boa música drone, há muitos pormenores a renovar o interesse do ouvinte que se concentre na escuta, e quem conseguir chegar ao fim do primeiro tema não vai de certeza adormecer (a menos que esteja morto de cansaço). A outra opção é deixar-se levar pelo som. E claro que é possível adormecer com esta música, mas seria uma pena, porque o This Quiet Season é demasiado interessante para esse fim. [s9-8] zz1a1b1a

FOUNDATION HOPE > Tunes For The Wounded > (Cold Meat Industry Sweden, CMI177) 15/fev

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Tunes For The Wounded pode ser considerado uma lamentação. É uma acusação violenta ao mundo e ao seu sofrimento. A irónicamente intitulada "Fundação da Esperança" apresenta a sua reclamação através de estruturas granulosas de ambient-industrial, sons quebrados e sentimentos de desespero. Isto sem nunca perder contacto com a noção de beleza e de melodia. Sempre com uma ténue réstea de esperança obscurecida pela dúvida e pelo cinismo. O sucessor de The Faded Reveries é um pouco mais abrasivo. Incorporou drones de guitarra distorcida, gravações em fita magnética, cordas partidas e explosões ruidosas. Firmemente enraizado na realidade, estas são as lágrimas que caem lentamente, a horda que rasteja em lama e sangue, o apelo a um redentor que não existe. O terceiro álbum da Foundation Hope, Tunes For The Wounded, é conceptualmente uma continuação de The Faded Reveries, tal como este fora um continuação de A Call To All Redeemers, todos eles atravessados por uma busca espiritual que recusa a religião organizada, considerando, perante as evidências históricas, que as esperanças humanas se baseiam apenas na ilusão. A capa de Tunes For The Wounded, da autoria de Joanna Queiroz, resume o conceito: a estátua de uma mulher desesperada que ergue os braços para um céu cinzento e vazio. [s12-8] zz1a1b1a2a1

DEUTSCH NEPAL > Dystopian Partycollection > (Cold Meat Industry Sweden, CMI180) 15/fev

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O sucessor de Erotikon, o álbum de 2006, não é um disco de originais mas uma compilação de temas espalhados por colctâneas e obscuros discos de vinilo, intitulada Dystopian Partycollection. Descrito pela própria editora como uma "lojinha dos horrores, onde se entra para furtar o que apetece", sem qualquer compromisso com um conceito global ou com um percurso dirigido pela audição, não se julgue por isso estarmos em presença de um álbum menor. São onze temas de psicadelismo industrial, sedutor, sombrio e decadente, uns mais ambientais, outros mais agressivos, numa grande variedade de estilos e ambiências, que têm muito a oferecer a quem se dedicar à sua descoberta. Mais do que uma simples colecção de canções, Dystopian Partycollection é uma colecção de peças que dificilmente se conseguiria reunir de outro modo, pois muito deste material está há muito esgotado e é custoso de encontrar. Quem aprecia Deutsch Nepal, e não possui a totalidade destes temas, pode comprar o álbum às cegas; para quem não é ainda fan, ou não conhece sequer, esta é uma compilação com a qual vale a pena passar o tempo. [s12-8] zz1a1b1a2a

NEWWORLDAQUARIUM > The Dead Bears > (NWAQ Holland, NWAQ02CD) 14/fev

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Newworldaquarium é o nome sob o qual o produtor Jochem Peteri, de Amsterdão, tem vindo a editar desde 2000 uma sucessão de EPs que agora culminam no álbum de estreia. O disco começou por ser editado num duplo EP de vinilo, com sete faixas e limitado a 500 exemplares, em Novembro último, mas é a versão CD, com cinco temas extra, recentemente publicada, que aqui destacamos. Talvez "album-estreia" não seja uma expressão muito rigorosa, porque Jochem Peteri mantém outros projectos em simultâneo – 154, Newworldromantic, Ross 154 – e já editou outro álbum sob o nome 154, mas considera este o seu projecto mais pessoal, que reflecte o seu lado abstracto. The Dead Bears, uma frase inspirada no filme "Grizzly Man" de Werner Herzog, era o nome destinado a uma banda de krautrock que Peteri e amigos pretendiam formar, mas a ideia nunca arrancou porque passaram o tempo a beber copos e a ouvir discos obscuros, e acabou como a designação do primeiro álbum de Newworldaquarium. A partir de uma linguagem dub-techno, Peteri mostra como é possível criar um som único, um groove feito a partir de house desacelerada e aquática, em espirais hipnóticas, com sintetizadores dos 80s e ecos de Detroit. Grooves viciantes que mudam de forma e de cor lentamente, enquanto esperamos que eles nunca terminem. Grooves vagarosos, porque debaixo de água todos os movimentos são mais lentos. [s11-8] zz1a1b1a2

TZOLK'IN > Haab > (Ant-Zen Germany, ACT210) 12/fev

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O projecto musical Tzolk'in é uma colaboração entre Empusae e Flint Glass – artistas bem conhecidos em áreas do dark-ambient, da música tribal e ritual, e da experimentação electrónica. Este projecto é uma criação conceptual inspirada pela mitologia maia, e a própria designação "tzolk'in" é retirada do calendário usado por essa civilização pré-colombiana. Haab é o segundo álbum, após a estreia auto-intitulada em 2004, e prossegue numa via muito própria: a junção das paisagens sonoras sombrias, ameaçadoras e opressivas de Empusae com as composições rítmicas e ambientais de Flint Glass. Sons cerimoniais profundos combinam-se com a energia e força da música industrial, unidos por ritmos rituais espontâneos e elaborados que descrevem a atmosfera de uma cultura outrora florescente. O produto final é majestoso e épico, por vezes marcial e agressivo, com um sentido trágico e meditativo. Haab pode ser visto como uma banda-sonora para os fantasmas de uma civilazação desaparecida, um mergulho numa era distante, ou, de um modo mais simples, música inspirada pela astrologia maia – um sistema de adivinhação que estava condenado à destruição. [s7-8] zz1a1b1

SASCHA FUNKE > Mango > (Bpitch Control Germany, BPC167CD) 11/fev

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Apesar de ser um dos nomes de proa da Bpitch Control, Mango é ainda o segundo álbum de Sascha Funke para a editora berlinense, o sucessor de Bravo, de 2003. Os mais de quatro anos que os separam foram assinalados por uma razoável quantidade de 12" e remisturas que testemunham a evolução da sua qualidade de produção. Com uma fixação pela melodia, que o acompanha desde o início da carreira, Funke usa-a com confiança tanto nos temas mais techno, como nos de electrónica mais contida ou nos de características mais ambientais, sempre com um som fresco, cativante e directo, surpreendente a cada faixa. A guitarra acústica e os teclados de "Summer Rain" são disto um bom exemplo, mas é inegável que Sascha Funke soa melhor quando tem uma batida 4/4 por trás, e entrega temas de calorosa precisão como "Take A Chance With Me", ou o cinemático "Feather". [s8-8] zz1a1b3

SOMATIC RESPONSES > Digital Darkness > (Hymen Germany, Y764) 8/fev

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Quase dois anos passados sobre a edição de Giauzar, chegou o momento de os irmãos John e Paul Healy avançarem com um novo trabalho. Parece que eles passaram este tempo não só na exploração de novos sons tonais e atonais, mas também numa re-análise das suas raízes musicais. A escuridão digital do título do álbum é um universo ressequido de baixos cromáticos distorcidos, batidas pesadas e simplificadas, pulsações filtradas em espirais, que estabelecem ligações desde os tempos em que o TB-303 dominava a música tecnoide, até aos anos 90, quando a velocidade aumentou e os ritmos se tornaram instáveis. As classificações estilísticas nunca foram preocupação para os Somatic Responses, no entanto Digital Darkness pode ser qualificado como um dos seus trabalhos mais directos desde há muito tempo. Os ingredientes característicos da sua sonoridade continuam presentes, mas o enriquecimento com pedaços do passado fazem de Digital Darkness uma mistura ácida altamente recomendável. [s6-8] zz1a1b | mp3

THE DOUBTFUL GUEST > Acid Sauna > (Planet Mu UK, ZIQ189CD) 4/fev

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Libby Floyd é uma das poucas mulheres que franqueou as portadas do universo maioritariamente ácido e ruidoso onde se movem os artistas da Planet Mu. Tendo, até agora, participado apenas em compilações, e com um único single de 12" de sua autoria, "Electrobotz", esta norte-americana residente em Londres acaba de editar Acid Sauna, o seu álbum de estreia. Pelo que se ouve, ninguém adivinharia a sua formação musical clássica (cantou ópera com Pavarotti) nem a sua linhagem jazz (é neta de J.B. Floyd), porque Acid Sauna é um disco fustigado por gabba e hardcore, numa aceleração de 303, 808, 909, Juno e máquinas afins, regado com doses generosas de ácido, de som sujo e misturado com samples rugosos de dub. É um álbum escuro, sufocante e claustrofóbico, a condizer com as influências assumidas por Libby Floyd - Coil, Marc Acardipane, Scott Brown e Neophyte. Para quem tiver saudades de ouvir um álbum de rave disparado a 200 bpm, esta é uma boa escolha. [s8-8] zz1a1b2

... e ainda: #14 fev/2008

CHESSIE > Manifest > (Plug Research USA, PLG84CD)
CYCLOTIMIA > Deja Vu > (Shadowplay Russia, SPR061)
EARTH > The Bees Made Honey In The Lion's Skull > (Southern Lord USA, SUNN90)
EXILLON > It's OK To Dance > (Ad Noiseam Germany, ADN96)
GERT-JAN PRINS > Break Before Make > (Editions Mego Austria, DEMEGO002CD)
HUMAN BLUE > Base Basket Buffet > (Transient UK, TRANCD105CD)
MACHINEFABRIEK > Ranonkel > (Burning World Holland, BWR003)
MATTHEW FLORIANZ > Maalbeek > (H/S Recordings UK, HSCD16)
MISS KITTIN > Batbox > (Nobody's Bizzness Germany, BIZZ2CD)
THE ORB > The Dream > (Liquid Sound / Dragonfly UK, BFLCD84)
PUNCH INC. > Fightclub > (Ant-Zen Germany, ACT209)
QNTAL > Qntal VI: Translucida > (E-Wave / Drakkar Germany, E-WAVE 066)
ROBERT OWENS > Night-Time Stories > (Compost Germany, COMP2852)
STARTING TEETH > I Won't Do Anything I Can Do > (Creaked Switzerland, CRDS10)
STEPHEN O'MALLEY & ATTILA CSIHAR > 6°F Skyquake > (Editions Mego Austria, DEMEGO003CD)
STEVE STOLL > Zero Point Crossings > (Fax Germany, PS08112)

EVAN BARTHOLOMEW > Secret Entries Into Darkness > (Somnia USA, SOMN002CD) ??/jan

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Foi com Caverns Of Time que Evan Bartholomew chegou ao nosso conhecimento. Ao procurar informação sobre o álbum descobrimos que entretanto tinha sido publicado este Secret Entries Into Darkness, na mesma editora mas separados por dois meses, e que existia ainda um álbum anterior, também de 2007, designado Borderlands mas editado na New Land Music - todos estes discos tiveram uma tiragem de 777 exemplares. Descobrimos ainda que Evan Bartholomew é um dos nomes utilizados por Evan Marc, produtor de techno e house, também conhecido por Bluetech em áreas mais próximas da IDM e do downtempo. Sob o nome Evan Bartholomew, o músico de Portland busca uma expressão mais séria e cinemática, em formatos mais longos, inscrevendo-se naquilo que se pode considerar o ambientalismo clássico, iniciado por Brian Eno. Ao contrário de Caverns Of Time, Secret Entries Into Darkness é mais rítmico e sombrio, das flutuações atmosféricas aos ritmos electroides pulsantes e minimais, com ambiências inquietantes e desoladas, suspensas algures entre as abstrações da vida e morte. [s11-8] zz1a1c

NÉMETH > Film > (Thrill Jockey USA, THRILL194) 29/jan

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Stefan Németh, membro dos Radian e Lokai e co-fundador da Mosz Records, faz a sua estreia a solo com Film. Desde 2001 que se tem dedicado a desenvolver temas sob encomenda, criando paisagens sonoras para filmes de realizadores experimentais e para instalações de artistas plásticos, mas só recentemente equacionou a possibilidade de preparar uma compilação em nome próprio para reunir algum desse espólio musical. Este álbum partiu desse material, reestruturado e desenvolvido em trechos musicais autónomos, com diferentes graus de adaptação mas mantendo o espírito cinemático que o caracterizava desde a origem. Film é uma mistura de sons electrónicos com instrumentos acústicos em que, frequentemente, é difícil distinguir entre os sons reais e os gerados digitalmente, combinando também a abstracção com formas convencionais. A electrónica é apenas mais um instrumento e os sintetizadores são quase todos analógicos. Quanto aos sons gerados digitalmente são assumidamente resultado de processamento digital, sem tentar reproduzir ou imitar a realidade analógica. Se as premissas não estão muito distantes dos Radian, com uma maior propensão para drones e electrónica obscurecida, os resultados mostram um paralelismo no gosto por sons e atmosferas invulgares. [s5-8] zz1a1

ANTHILIAWATERS > The Miles Without You > (Isophlux USA, ISO032CD) 22/jan

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A Isophlux, sediada em Miami, é uma editora de música electrónica com alguns nomes de peso na sua discografia, como Lusine, Lexaunculpt ou Gosub, à procura de uma segunda vida depois de uma pausa que durava já desde 2001. O regresso é consumado através de Anthiliawaters, um colectivo que pretende fazer "electro ao pequeno-almoço" - uma ideia excêntrica explicada no site da editora – para acompanhar café, torradas, ressacas, e outras coisas próprias da manhã. Mas, mais do que música para comer cereais, The Miles Without You é uma convincente visão de futuro moldada por Detroit, com sintetizadores calorosos e jazzísticos, linhas de baixo em dub, grooves de electro-house, com vozes e melodias a enquadrar as batidas suaves e secas. Afinal, não é música para certos momentos - é o próprio momento em si. Com simplicidade e uma produção apropriada, The Miles Without You é um álbum perfeito para ouvir no sofá, apesar das suas raízes na pista de dança serem mais do que evidentes. [s6-8] zz1a1a

ANGEL > Kalmukia > (Editions Mego Austria, EMEGO087) 21/jan

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Ilpo Väisänen e Dirk Dresselhaus (respectivamente dos Pan Sonic e dos Schneider TM) dedicam-se desde 1999 a experimentar formas livres de noise, que tendem a transformar-se em drones, situando-se numa terra-de-ninguém em termos musicais: algures entre o industrial, dub, new-music, indie-rock, blues e bandas sonoras de ficção-científica. Desde 2004 passaram a ser acompanhados regularmente por Hildur Guðnadóttir (dos Múm), cujo violoncelo é decisivo na sonoridade actual do trio Angel. Os quatro temas de Kalmuria seguem para diferentes horizontes, desde uma versão sonolenta do doom dos Sunn O))) - Stephen O'Malley é o autor da capa do disco, a propósito -, passando por referências aos Dirty Three, rumo a uma sonoridade mais abstracta nos dois temas finais, com manipulações electrónicas algo bizarras e texturas sonoras não identificáveis, de maior organicidade e leveza no tema de encerramento. Kalmukia é um disco de vastidão épica, numa jornada de descoberta e de mutação final, um filme sem imagens onde cabe ao ouvinte atribuir as cenas que a sua imaginação lhe ditar. [s7-8] zz1a1a1

JON MUELLER > Metals > (Table of the Elements USA, TOECD108) 20/jan

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Um álbum de capa negra e as runas onde, com algum esforço, se consegue ler a palavra "metals", poderia fazer adivinhar um disco de metal extremo. Mas não é bem disso que se trata, embora esta música nos faça imaginar como soaria uma banda de death-metal que apenas utilizasse percussões. Jon Mueller é um baterista e percussionista que, desde meados dos anos 80, já tocou com muita gente – Jarboe, Asmus Tietchens, os Pele ou Rhys Chatham, só para nomear alguns – sobretudo em meios ligados à música improvisada. Em Metals, Jon Mueller utiliza ritmos feitos a partir de gongos e tambores, explorando ao máximo o "drumkit", aproveitando frequências e vibrações, com sonoridades surpreendentes que ocorrem na combinação desses elementos. É um disco de pura euforia, enérgico e ruidoso, de ritmos organizados e precisos. Dividido em três faixas, o álbum contrapõe um minimalismo de recursos a uma imensa diversidade de resultados, que têm como denominador comum o peso esmagador da anti-melodia. [s4-8] zz1a

EIDULON > Idolatriae > (Malignant USA, TUMORCD33) 17/jan

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Resultado de anos de trabalho persistente, Idolatriae é o álbum de estreia do italiano Francesco Gemelli sob a designação Eidulon (por vezes grafado como Eidvlon), composto por sete temas de atmosferas inóspitas e abstractas, com sons e texturas que parecem arrancados a subterrâneos e catacumbas. É seguramente um disco de dark-ambient, mas é também muito mais do que apenas isso, evitando a repetição de estereotipos e redundâncias que tantas vezes, preguiçosamente, invadem o género. Idolatriae é feito de movimentos tectónicos, granulações e ressonâncias fantasmagóricas, reverberações geológicas com inesperadas facetas melódicas reveladas nos seus drones profundos e maciços, e nas camadas do mais puro e ambiental minimalismo sónico. A música tem uma atmosfera distendida nas suas frias divagações, em que cada faixa foi concebida com o mais apropriado sentido de oportunidade e equilíbrio, com as melodias e frequências no ponto certo para melhor fruição. Um trabalho imponente que não deixará ninguém indiferente. [s8-8] zz1a2

AUTISTICI > Volume Objects > (12k USA, 12K1045) 9/jan

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As narrativas sonoras de Autistici procuram o intercâmbio entre som e espaço. E espaço, neste contexto, inclui a cabeça do ouvinte. Neste território, reflexão e fantasia recontextualizam o som de acordo com o mundo interior de quem escuta. O seu trabalho incorpora uma grande variedade de fontes, incluindo a criação de som texturado, orquestração, espaço, e fragmentos de sons incidentais ou gravações de campo, representando pormenores que tanto podem ter origem na natureza como em criações humanas. No desejo de tornar o som tão táctil quanto possível, ele trabalhou objectos incidentais, intrumentos acústicos, sintetizadores e captações ambientais. De concepção e realização cuidada, Volume Objects é um disco solto e orgânico que requer uma escuta atenta. Tanto a forma como a melodia são sugeridas de forma vaga para, no instante seguinte, desaparecer de vista; o sentido de narrativa e de organização é criado pela sucessão de inúmeros pormenores, numa história fragmentada que joga com a memória. Para quem seguiu a carreira do inglês Autistici ao longo dos últimos quatro anos, a sua chegada à 12k não constitui uma surpresa. Em que outra casa se poderia editar um álbum de microsons tão cativante e acolhedor? [s2-8] zz1 | mp3

ANDREA MARUTTI > The Subliminal Relation Between Planets (Live In Archiaro) > (Nextera Czech Republic, ERA 2049-2) 8/jan

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Andrea Marutti, também conhecido por Amon e Never Known, inscreve-se numa área que se identifica vagamente como drone-music ou ambient. É difícil identificar o seu processo criativo mas, sejam sintetizadores, samplers, processamento digital ou apenas um montão de efeitos sonoros, o resultado final são 70 minutos de electrónica absolutamente sombria. Apresentado e gravado ao vivo em Archiaro, Catanzaro (Itália) a 24 de Agosto de 2007, e trabalhado em estúdio em Milão nos dois meses seguintes, The Subliminal Relation Between Planets alinha pela melhor tradição space-ambient de Lustmord ou Klaus Schulze. Sem ser particularmente inovador é no entanto um disco de excelente música, perfeita para induzir à contempação das estrelas... ou antes, dos planetas. [s3-8] zz2 MySpace

MACHINEFABRIEK > Music For Intermittent Movements > (Machinefabriek Holland, no cat. no.) 3/jan

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Rutger Van Zuydervelt acrescenta mais um título à sua imensa discografia, desta vez um CD-R de música destinada a filmes do realizador norte-americano John Price, curtas metragens a ser exibidas brevemente no Festival de Cinema de Roterdão. Music For Intermittent Movements encontra Machinefabriek em boa forma, em digressões de ambient-noise que fazem lembrar Philip Jeck, Deathprod ou William Basinski. São sons degradados de vinilo gasto, pequenas melodias que aparecem aqui e ali, guitarras com processamento digital, percussões fragmentadas e baixos de drones. Composto por quatro temas e um interlúdio, este novo disco fará as delícias dos apreciadores de Machinefabriek, mas o alto débito da sua produção – e isto significa edições a um ritmo quase semanal – ameaça atingir o ponto de saturação, desgastando a relevância que o seu trabalho merece. [s2-8] zz | mp3

... e ainda: #13 jan/2008

AGF > Words Are Missing > (AGF Producktion Germany, AGFPRODUCKTION008)
ANTONELLI > Soulkiller > (Italic Germany, ITALIC071CD)
CLARK > Turning Dragon > (Warp UK, WARPCD162)
THUJA > Thuja > (Important USA, IMPREC173)
WRAITHS > Oriflamme > (Aurora Borealis UK, ABX020LP)
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