distorsom : webmusiczine : ambient,
 

Porque deixou a Rádio Comercial cair António Sérgio?

asergio

A música de António Sérgio é a melhor

Na madrugada deste último sábado António Sérgio conduziu a última emissão do programa Na Hora do Lobo na Rádio Comercial, que decidiu não o integrar na nova grelha da estação. Os admiradores assumidos só esperam que alguma rádio sortuda se apresse a pôr o lobo a uivar outra vez. E Miguel Esteves Cardoso deixa aqui tudo dito.

 

António Sérgio nunca esteve bem em qualquer estação de rádio. Mesmo quando a rádio era rádio. Porque António Sérgio é uma estação de rádio andante e uma estação não cabe noutra estação.

Para mais, é uma estação hostil às outras, contra as quais exerce uma guerrilha permanente. Mais do que meramente ingovernável - ou até uma oposição paciente - António Sérgio e a indissociável Ana Cristina Ferrão são um governo em exílio permanente. E com uma imperdoável agravante: é assim que gostam. E é nisso que insistem teimosamente. É lindo.

Os espanhóis da Prisa fizeram bem em despedi-lo. Estando livres de gratidão, memória ou preocupações da representação da boa música em Portugal, tiveram a coragem que faltou aos antecessores portugueses, ainda demasiado constrangidos pelo reconhecimento e pelo medo da superioridade musical de António Sérgio.

É importante frisar que não é de agora a tanga do mercado nem o fado do fim da rádio. António Sérgio só durou até 2007 porque se recusou a ir embora. Desde os anos 70 que agentes sorrateiros se agacham atrás dele, tentando puxar-lhe a cadeira, a ver se cai. Mas o homem sempre esteve ocupado de mais para reparar. Fincou os pés, sacou dos discos e fez o que sempre fez: o que lhe estava na real gana. De resto o desprezo pode ser a mais bela das distracções.

Ajudou também o facto de António Sérgio ser o melhor divulgador de música popular do nosso tempo - John Peel era magnífico mas tinha lapsos de gosto. Muito se perdoa a quem escolhe música boa tão bem, durante tanto tempo, com tanta arte e tanta inteligência.

A música de António Sérgio é a melhor e está tudo dito.

Claro que é preciso gostar de boa música - e de querer descobrir boa música nova - para perceber a grandeza e a utilidade brutal de António Sérgio. A nostalgia é um argumento inimigo. Hoje há muito mais música boa e muito mais música nova do que nos anos 80 ou 60. Mas continua a ser 0,1% de toda a música que se faz.

Essa proporção continua a mesma. O que mudou é a atitude geral da população. Dantes, a ignorância inibia e produzia falsos respeitos por quem se suspeitava "ter conhecimentos". Havia seguidismos acéfalos e dependências paralisantes, tudo exacerbado pelas dificuldades e desigualdades de acesso à música. Havia mestres: era inevitável. ("Mestres" no mau sentido, de professorzinhos de província.) Na rádio as directrizes dos mestres eram obviamente inseparáveis do acesso à música para que nos dirigiam.

Não era bom - até porque os mestres eram mais do que muitos e geralmente pomposos e autoritários, para não falar nos vendidos. Mas é inegável que, entre os pouquíssimos capazes de descobrir e defender música boa, o maior era e é António Sérgio. Por definição é um anti-mestre, desinteressado do tráfego de influências e da concordância dos seguidores.

Digo mal desse tempo - que era também o meu - para poder absolvê-lo do maior defeito dos tempos de hoje, apesar de serem musicalmente mais vastos e empolgantes: o relativismo ignorante. É ele que acaba por explicar a atmosfera que leva à lata de despedir António Sérgio.

Segundo o relativismo ignorante, ninguém pode dizer se uma música é boa ou não. É tudo uma questão de gosto. Depende das circunstâncias. Depende da idade. Às vezes sabe bem uma coisa que, noutra altura, sabe mal. Cada um é como é e aquilo que agrada a um ... perdoem-me se me fico por aqui no blá blá blá.

Tem ou não tem graça como esta atitude coincide exactamente com a conveniência comercialista do cliente ter sempre razão; que os números não mentem; que os ouvintes é que sabem; que os anunciantes é que pagam e quem somos nós para dizer que não está bem assim?

O pior é que esta humildade é uma subserviência e este deixar decidir, este respeito pelos gostos dos outros, é uma gulosa cobardia. Que vai acabar mal - porque quanto mais a rádio se recusa a ser minoritária mais as minorias vão fugir dela. O problema da massificação é que as massas não existem para depois virem agradecer o que se fez por elas.

A apologia do tudo-vale confunde-se sempre com a santificação da ignorância e daí até dizer que António Sérgio sabe escolher música tão bem como eu vai um passinho. A verdade é que sabe muito mais. Escolhe muito melhor. Arrisca mais e engana-se menos. É simples: António Sérgio sabe mais de música popular - no sentido de saber escolhê-la, que é o único que interessa - do que qualquer outra pessoa.

É por haver tanta música hoje - e tanto acesso - que a sabedoria selectiva de António Sérgio é mais valiosa e necessária do que nos tempos ditos áureos em que, verdade se diga, não era assim tão difícil separar o trigo do joio. A música de António Sérgio é como a boa música: não se deixa interromper. É ele que não deixa. O homem sabe o que vale e o que tem de fazer. É escusado atravessarem-se no caminho dele. O que menos interessa é a estação de rádio.

A música de António Sérgio é a melhor e está tudo dito.

Se calhar foi isso que custou à Rádio Comercial engolir. Não soube suportar o desprezo, talvez por saber que o merecia. Às vezes, quando existe uma pontinha de vergonha, é desagradável ter, mesmo ali ao lado, um exemplo tão claro de dignidade. De estatura. Desmotiva muito. Faz lembrar coisas que conviria esquecer, que atrapalham a marcha para a capitulação final.

Vai ter sorte a estação de rádio onde voltará a tocar a música de António Sérgio. Mas que fique desde já avisada que escusa de tentar desviar a caminhada do bicho. Em vão agitará no corredor papéis com números de audiências ou os amoques de focus groups. É escusado implorar-lhe que oiça "sem preconceitos" os CD de merda que vos interessa impingir. Não vale a pena atirar-lhe com a história dos tempos terem mudado.

Os tempos sim; a rádio outrossim; mas a urgência de descobrir e defender a música boa é a mesma de sempre. Ou maior ainda, dada a massificação da própria desistência de escolher e divulgar a música que vale a pena.

E não há ninguém que saiba fazer isso melhor do que António Sérgio. Que não faz outra coisa desde que faz rádio. Que não fará outra, mesmo que tentem impedi-lo. Para nosso bem - e, sobretudo, para bem de quem ainda não se sabe quem.

Ou então não - nem isso é preciso. A música de António Sérgio é a melhor e está tudo dito. Haja pressa em poder ouvi-la e saber dela outra vez.

 

Público 17.set.2007

.

item8

Actualização (Dezembro 2007)

António Sérgio voltou à rádio - era inevitável. A "feliz contemplada" é a Radar 98.7 FM, o que significa ser necessário estar em Lisboa ou arredores para escutar - ou talvez não, porque existe também uma emissão online. Viriato, 25 é a designação do novo espaço hertziano, que vai para o ar entre as 23:00 e a 1:00 horas.

Radar FM

.

item8a

António Sérgio (1950 - 2009)

O direito à diferença

Esta imagem. Alvorada dos anos 80, Lisboa, pátio da Faculdade de Belas-Artes. Num palco improvisado tocavam os grupos Sétima Legião e Croix Sainte. A vê-los, dezenas de adolescentes, na sua maioria de gabardina antiquada, cabelos eriçados e postura cuidadosamente ausente. As cores predominantes são cinzento e preto.

No meio, um casal mais maduro. Distinguem-se com facilidade da pequena multidão. Ela, Ana Cristina Ferrão, aloirada, elegante. Ele, António Sérgio, camisa aos quadrados, botas, barba, cerveja na mão, a imagem da descontracção. Às vezes alguém se aproxima dele para o cumprimentar calorosamente. Mas mesmo os que o não fazem olham-no com respeito. Quase todos o conhecem. Visto dali, parece um guia espiritual no meio dos fiéis.

Para várias gerações, com destaque para a que cresceu nos anos 80, era uma figura venerada. Quem o conheceu pessoalmente, reconhecia de imediato a humildade no trato, a paixão da música na comunicação. Quem não o conheceu intimamente, fê-lo através dos microfones da rádio, voz singular, profunda e grave, um afecto especial pelos ouvintes, um inglês perfeito quando tinha que nomear nomes de bandas ou fazer entrevistas.

Domingo, quando se soube que havia falecido de ataque cardíaco, aos 59 anos, a Net encheu-se de mensagens de pesar. Os programas de rádio que realizou, a cultura que evidenciava, a paixão que transmitia, o pioneirismo na divulgação de grupos e estilos musicais num período em que o acesso ao novo era difícil, transformaram-no numa figura fulcral. São inúmeros os músicos, melómanos, amantes de música, que lhe devem qualquer coisa.

Ele, que nasceu em 1950, estreou-se na Renascença em 1968. Em 1977 deu início ao seu primeiro programa de autor. Chamava-se Rotação e, durante três anos, na Renascença, transformou-se no veículo de difusão das movimentações punk, pós-punk ou new wave que dominavam a Europa e os EUA. Foi também ali que bandas portuguesas como os Faíscas, Aqui Del" Rock, Corpo Diplomático e Xutos & Pontapés debutaram radiofonicamente. Não havia mais nada assim na época.

Depois mudou-se para a Rádio Comercial. Entre 1980 e 1982 realizou Rolls Rock e entre 1982 e 1993 O Som da Frente, cujo lema era "o direito à diferença". Foram os seus programas mais emblemáticos, ou pelo menos aqueles que influenciaram decididamente os anos 80.

Perceber o seu impacto é entender uma época. Portugal despertava lentamente da ditadura. O isolamento, em termos de consumos culturais, era evidente. Mas um grupo restrito de pessoas ensaiava algo de novo, desejando um país mais aberto e diverso. A música funcionava como lugar de pertença, forma "alternativa" e "diferente" - e outras palavras que hoje parecem deslocadas - de pensar e experimentar o mundo.

Em Lisboa, o Bairro Alto, enquanto fenómeno cultural, despertava. No Sete Miguel Esteves Cardoso escrevia uma coluna onde dava conta das movimentações em Inglaterra. Em espaços de concertos como o Rock Rendez Vouz e A Teia, ou em escolas como a António Arroio, grupos como os Pop Dell" Arte, URB, Croix Sainte, Mão Morta, Ocaso Épico ou Sétima Legião nasciam, juntando-se aos Xutos & Pontapés, GNR ou Rádio Macau.

Em 1982 acontece a segunda edição do festival Vilar de Mouros com U2, Echo & The Bunnymen ou A Certain Ratio. No pavilhão dramático de Cascais tocam os Clash, no Pavilhão do Restelo Siouxsie & The Banshees, na Aula Magna os Durutti Colum, no Rock Rendez Vous os Chameleons. De repente, na primeira metade dos anos 80, Portugal parecia menos isolado, tentando acompanhar o que de mais estimulante se ia passando pelo mundo.

Alguém que incutia paixão

Às vezes de forma visível, outras sub-reptícia, umas vezes impulsionando, outras reflectindo, era nas emissões de O Som da Frente que tudo parecia ganhar sentido. Havia um Portugal reservado colado àquelas emissões.

Tiravam-se notas do nome dos grupos que se ouviam. Gravavam-se cassetes e partilhavam-se. Corria-se da porta do liceu para casa para não se perder pitada. Nas cidades, e na província, havia quem percebesse que não estava só. Alguém nos mostrava, através da música, que havia outros a experimentar emoções (rejeição, isolamento, confusão) que julgávamos ser só nossas.

De repente, percebíamos que havia muitos outros "diferentes", "alternativos", "vanguardistas" e outras expressões anacrónicas, mas que no tempo da adolescência marcam. O Som da Frente já não era um programa de rádio. Já não era música, apenas. Era senha de identidade trocada entre uma "imensa minoria" - o slogan que serviria, anos depois, para animar a XFM, a rádio que herdou o espírito militante daqueles anos.

Era no Som da Frente, na alvorada dos anos 80, que se podia ouvir em primeira mão grupos como os Gun Club, Joy Division, New Order, The The, Bauhaus, Cure, Associates, R.E.M., Teardrop Explodes, Smiths, Fall ou Feelies.

Para essa geração, António Sérgio foi orientador. Alguém que formava o gosto. Que incutia paixão. A mim também. Conheci-o aos 16 anos, através de dois amigos mais velhos, os irmãos João e Tó-Zé Borralho, que o visitavam às quarta-feiras, na Comercial, à Sampaio e Pina. Permutavam discos. Era o espírito da época. Não havia lojas com aquela música. Ou se pedia a amigos que viajam para o exterior ou importavam-se directamente.

Às quartas emprestavam entre si os discos que, cada uma das partes, ainda não tinha. Fui uma das vezes com eles, puto, envergonhado, para o conhecer. Depois regressei muitas mais vezes. Por vezes surgia com a mulher que o acompanhou até ao fim e que com ele colaborou sempre - a Ana Cristina Ferrão. Falava-se, claro, de música. Dos grupos que era imperioso trazer a Portugal, dos discos imprescindíveis.

Há três anos, em conversa, recordando esses tempos para um artigo nestas páginas, dizia que a música naquela época era também estilo de vida: "Existia um esforço para acompanhar um comboio de cultura, de alegria de viver, que era irreversível. Não era só música, era uma maneira de pensar que tem a ver com livros ou filmes. Aquele período foi bóia de salvação, forma de dizermos "vamos sair daqui", do marasmo dominante em Portugal."

Nem só de rádio era feita a sua actividade. Colaborou com o então semanário Blitz, no suplemento mensal Manifesto, ou em O Independente. Fez locução para TV e publicidade, trabalhou na indústria discográfica e foi um dos produtores do álbum "Música Moderna" dos Corpo Diplomático, que dariam origem aos Heróis do Mar. Dirigiu também a etiqueta Rotação, onde se estrearam os Xutos & Pontapés com "Sémen". Seria aliás creditado como produtor do primeiro álbum do grupo e os Xutos, por sua vez, eram os autores do genérico do programa O Som da Frente.

Depois desse programa outros se seguiriam, na XFM, Best Rock e Radar (Lança-Chamas, O Grande Delta, A Hora do Lobo e, ultimamente, Viriato 25), marcando outras gerações, resistindo à perda da influência dos programas de autor e às transformações da indústria da música, mas naturalmente o seu predomínio dilui-se. O país mudou, outros guias surgiram, novas formas de consumir e descobrir música irromperam. Mas por onde passou manteve a mesma personalidade, o mesmo espírito independente. Há dois anos recebeu o apoio de figuras públicas que se insurgiram contra o afastamento da Comercial. O ano passado completou 40 anos de rádio. Mesmo assim, era um "lobo", um solitário - "em rádio estamos habituados a sentir-nos sozinhos. Sabemos lá se nos estão a ouvir 10 ou 10 mil pessoas", afirmava há dois anos à Blitz.

Há semanas, a convite do Teatro Maria Matos, fui falar sobre a minha relação com a música e como ela se tinha enquadrado na minha vida. Às tantas afirmei que a música me tinha salvado a vida. Provocação, claro. Mas também verdade, no sentido de me ter aberto portas para outros mundos (literatura, cinema, artes, países, etc.), de me ter permitido entender emoções indizíveis e de, através dela, ter feito alguns dos amigos para sempre.

E evoquei uma conversa recorrente com um deles, Luís Quintais, poeta e antropólogo. Diz ele que gostava de ter uma profissão onde sentisse que podia salvar vidas e dá o exemplo da medicina. Eu respondo-lhe que a poesia salva vidas e que existem outras actividades, desde que feitas com paixão e entendimento, que têm essa faculdade.

É nisso que acredito. Acredito que divulgar música, como o "Mestre", o "John Peel português", o "Lobo", o radialista António Sérgio fazia, salva mesmo vidas. Tenho a certeza de que muitos outros concordam comigo.

Vítor Belanciano, Público 06.nov.09

.